terça-feira, março 27, 2018

Eu sou o centro da circunferência sem limites.
Sou o Oceano sem praias,
Sou Aquele sem rosto, o sempre velado.
Estou em todas as partes e em nenhuma.
Sou a fonte de desejo de todos os amantes.
Ó tu, não mendigues o amor dos homens!
Ele não assa dum delírio.
Ama a Mim, que sou teu Deus
E sou tua Deusa.
não busque a satisfação de teu desejo
na limitação e parcialidade dos homens.
homem algum jamais será amigo como Eu sou.
Mulher alguma jamais te amará como Eu.
O vinho da taverna traz efêmera embriaguez.
os seios de uma amante aquecem
por apenas uma noite.
O sumo do Meu Amor te embriagará
Para a eternidade.
O gozo do Meu amor te satisfará
O coração perenemente.
Abandona a ilusão da dualidade.
Eu sou o Uno, misterioso.
Veste tua túnica branca
E dança em torno de mim.
Eu te acolherei como filho e adapto.
E te ensinarei os Mistérios.
Ama-Me. Não mendigues o amor dos homens.
Eu sou a Fonte de todo Amor.

Awmergin, o Bardo

domingo, março 18, 2018


Acabou-se a festa da carne entre nós.
O fogo abrasador da paixão
Se exauriu e o que restou?
Só a chama serena daquele Amor
Cuja luz cintila, mas não pode ser vista.


Um calor envolvente nos enlaça.
Sorvemos todo o doce e enebriante vinho
servido na taverna do deleite.
Mantivemo-nos ali por tanto tento, ó meu amor!
Eu e tu quase nos tornamos escravos do gozo.

Mas, Hermes mensageiro vindo do Olimpo
Nos advertiu: "Não vos detenhais demasiado tempo
Neste enganador himeneu. Sabei que uma verdade
sublime vos aguarda. Calçai vossas sandálias
E parti desta taverna de ilusões".

Como Odisseu despertado dos delírios
Causados pelo lótus, saímos nós de nosso sonho
De paixão e prazer.
Despedimo-nos com um beijo,
sabendo que durante muito tempo não nos veríamos.
Lágrimas escorreram pelas tuas faces, bem como pelas minhas.

Awmergin,
in "O Templo de Eros"

O vento cavalga desde o Leste
numa montaria invisível.
Ele me traz uma mensagem:
"Sossega a tua mente e abre uma garrafa de vinho".

Eu o ouvi com o ouvido surdo.
Tomei o vinho de velha safra e o abri.
Despejei-o delicadamente no cálice
E sorvi um trago.

Que delícia maior pode haver nesta noite?
Minha mente quieta, a carícia do vento
E a doçura do rubro líquido, dom de Dionísio.
Faltam-me apenas os teus lábios vermelhos...

Awmergin, o Bardo
- in "O Templo de Eros"

sábado, janeiro 23, 2016

Percorreste muitas sendas e veredas...


Percorreste muitas sendas e veredas.
Entraste em labirintos dos quais não sabias a saída.
Enfim, encontraste a rota para a tua salvação.
Seguiste a luz que brilhava sem arder
E foste fiel à tua visão.

Procuraste o caminho fora de ti,
Mas nunca o encontraste.
Compreendeste que o Caminho e tu são um só.
Voltaste os teus passos para dentro
E não para fora.

De que te adiantou correr o mundo?
De que te valeu viajar países?
De que te serviu atravessar oceanos?
O quão útil foi cavalgar os oito ventos?

Tu és o mundo.
Tu és o teu reino.
Tu és o Oceano sem praias.
Tu és o imperador celeste.

Awmergin, o Bardo

quarta-feira, maio 06, 2015

Escuta do que a montanha de diz.



Escuta o que a montanha te diz.
Silencia-te!
Os ventos sopram e te revelam segredos.
Escuta!

Tendo compreendido o que aqui vim buscar
Devo descer uma vez mais
Ao vale da Vida.
Ali, aguardam-me os homens
Em suas labutas, em sua ignorância,

Mas, eles têm sede e fome.
Eles estão sós, embora vivam em multidão.
Devo descer. Sim, eu devo.
Tendo vislumbrado o sol da Realidade Una,
Tendo sorvido o néctar celeste,
Devo retornar.

Escuta o canto do pastor que
com suas cabras apascenta
no Vale abaixo.
Escuta o canto do amante apaixonado
Por sua amada.
Escuta a voz da multidão em confusão na feira da cidade.
Ó tu, ouve!

São as almas que clamam
e manifestam os seus desejos pela vida.
Escuta, tu que ascendeste à montanha do Ser!
Escuta as vozes e os cantos dos homens e
Volta ao vale da Vida!

Awmergin, no pico da Montanha do Ser

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Perenis


As estações passam e se alteram.
O Sol dá passagem à Lua
E a Lua deixa o Sol passar.
A maré tem fluxo e refluxo
noite e dia são amantes
E se encontram por breve momento no crepúsculo.

Esta existência é um eterno movimento.
Amantes se encontram e se separam.
Corpos unem-se e se distanciam.
Átomos unem-se e se desagregam.
Sistemas solares giram em tono de sóis
E depois deixam de existir.
Mesmo o Universo, nasce e morre.
E eu, que sou carne? Hei de desaparecer também...
Oh! Que há de permanente sob o Sol?
Nada...

Só Tu, além de toda existência,
Além de todo movimento,
Além de todo câmbio,
Só Tu permaneces intacto,
Sereno e quieto em teu trono sublime.
Nesta vida, onde tudo passa e se vai,
Escolhi a Ti como meu amor e meu deleite:
Tu, que não vais e não passas;
Tu que és para além da existência.

Awmergin, o Bardo

domingo, fevereiro 15, 2015

A Busca.


Há muito busco pela Felicidade,
Assim como o ávido busca pelo ouro,
O radiante e áureo metal.
Busquei-a em muitas partes
5. E em muitas coisas depositei
Minha fé, na esperança
De encontrá-la. Dias incontáveis
Percorri caminhos tentando
Alcançá-la pelas estradas da vida.
10. Nas brumas da noite arrojei-me
Em seu encalço, portando a lamparina
De minha inteligência, para iluminar
Os meus passos em brumosos caminhos.
Não logrei encontrá-la, seja de dia -
15. Quando Apolo transita pelo céu
Com sua fogosa quadriga -
Seja à noite, quando Urano encobre seu
Corpo titânico com o manto estrelado
E Ártemis dispara suas flechas
20. De prata sobre a terra.
Cansado de trilhar caminhos,
Repousei meus pés e meus passos vadios
Nas tavernas do deleite
E busquei a Felicidade nos gozos
25. Efêmeros, esperando que a ânsia
Sublime de minh’Alma se sentisse
Satisfeita. Frequentei bares e tavernas,
Onde sorvi o rubro vinho, dádiva de Dionísio,
E tive algumas horas de inebriante e
30. Falsa alegria. Passado o efeito do vinho
Foi-se a alegria, restando tão-somente
Minha lucidez amarga.
Também busquei a Felicidade
No barulho e no luxo das festas.
35. Frequentei a alta-sociedade, cujos membros
Trajam-se com beleza e sofisticação,
Mas são egoístas, vaidosos e hipócritas;
Têm posses no mundo exterior, porém,
São vazios e pobres em suas almas.
40. Assim, apartei-me deste mundo de luxo,
Vaidade e vazio de Almas...
Ali não encontrei a Felicidade.
Posteriormente, frequentei as filhas de Afrodite,
Em cujos lábios sorvi um mel delicioso
45. E em cujos seios quentes e macios
Descansei minha cabeça pesada de preocupações.
Nos braços das mulheres, e nos gozos
Que elas me ofereceram, busquei a Felicidade.
Contudo, não logrei encontrá-la, também,
50. Entregando-me aos voluptuosos deleites.
Desvencilhado dos braços ternos
E quentes das filhas de Afrodite,
Retomei meus passos errantes mundo afora.
Desta vez, todavia, vi a mim mesmo
55. Farto de gozos e deleites efêmeros.
Abandonei-os e fui em busca
Da Felicidade nas coisas sagradas
Das religiões. Nos templos encontrei
Apenas pedras amontoadas e fanáticos,
60. Homens inconscientes dizendo-me
Que suas doutrinas eram as únicas
A conduzir a Deus. Nas religiões e
Nos templos artificiais, erigidos
Por mãos humanas, não logrei
65. Encontrar Deus nem, tampouco, a Felicidade.
Noutro momento de minha busca,
Participei de ritos misteriosos, de religiões
E seitas igualmente misteriosas
A prometer-me Felicidade e bem-aventurança
70. Após minha iniciação em suas ocultas
Cerimônias,
71. Compreendi que a iniciação no templo da Sabedoria
Não pode ser oferecida por ninguém, tampouco dada
À Alma vinda desde fora, mas se acessa ao templo
No próprio coração. Ali encontre a chama sagrada e eterna:
O fogo místico do Amor.
72. Quem me pode fazer feliz, quem? Ninguém além de mim.
Em meu Ser encontra-se a fonte e o manancial eterno.
Posses e bens não me fizeram feliz. O Ser, sim.
Paixões me tiraram caminho; o Amor colocou-me nele.
O Amor é a Verdade, a Luz e a Vida.

Awmergin, o Bardo






quarta-feira, janeiro 28, 2015

Sobre a Alquimia


A Alquimia trata-se de uma Arte, Técnica e Ciência de acelerar os processos da Natureza.

O Alquimista legítimo não é aquele que está enfurnado num laboratório hermeticamente fechado, realizando obras misteriosas. Trata-se isto sim, de um homem discreto, que possui um mundo interior rico (o ouro filosofal) e que realiza a "Magnum Opus" (a Obra Maior) no laboratório de sua própria mente.

Muitos passam por ele e não sabem quem ele realmente é. Ele realiza seu trabalho sagrado (sacro ofício), em silêncio para que o resultado seja o melhor possível: a transmutação dos metais pesados de sua própria constituição. Uma vez realizado este trabalho, somente então poderá transmutar os materiais exteriores a si: sejam rochas, plantas, animais ou homens, porque ele transmutou-se a si mesmo antes.

Awmergin in "Escritos Iniciáticos"

O Deserto.


Meu coração estava árido,
Num deserto eu me encontrava,
sem água, sem alimento.

O sol, inclemente, secava a minha pele.
Cansado e ferido de tantas batalhas e combates,
Já quase nenhuma esperança restava

Quando surgiste, trajada em tuas ondulantes vestes.
Tinhas o rosto recoberto por um véu.
O corpo, quase desfalecido sob aquelas escaldantes areias.

Divisei a tua imagem como miragem ao longe.
O pouco juízo que ainda me restava me dizia:
"De certo é um espírito das areias, um Djin"...

Acariciaste o meu rosto e disseste:
"Ainda não chegou o dia em em que
O alento abandonará o teu corpo.
Toma, bebe desta água refrescante".

Tomei a água que me deste
E revivi, nutrido pelo sagrado líquido
E pelos teus cuidados.

Em meio àquela vastidão desértica
Tu me encontraste e me fizeste reviver.
Cá estou agora: vivo e cantando novamente.

Awmergin, o Bardo

https://www.youtube.com/watch?v=Tc_5CMiBasg&noredirect=1