segunda-feira, agosto 06, 2007

Platão e os platônicos (por R. W. Emerson)



Passagens selecionadas do filósofo e escritor americano

"Dentre os livros seculares, só Platão tem direito à reverência que o fanático Omar fazia ao Alcorão quando dizia: 'Queimai as bibliotecas, porque todo o seu valor está neste livro'. Os seus pensamentos contêm a cultura das nações, as suas idéias constituem a pedra angular das escolas e os seus propósitos são a fonte das literaturas. É uma disciplina em matéria de lógica, de matemática, de gosto, de harmonia, de poesia, de linguagem, de retórica de ontologia, de moral ou de ciência prática. Não houve jamais tal amplitude de especulação.
É de Platão que sai tudo o que se escreve e discute ainda entre os homens de pensamento. Ele faz um grande destroço nas nossas originalidades. Bíblia dos sábios desde há vinte e dois séculos, todos os ardentes jovens que por sua vez vêm dizer belas coisas à gerações refratárias - Boécio, Rabelais, Erasmo, Bruno, Locke, Rousseau, Alfieri, Coleridge-, são leitores de Platão, traduzindo na sua língua materna, com espírito, as suas coisas boas. Mesmo os homens de proporções maiores sofreram alguma diminuição no seu valor (deverei dizê-lo?) por vir após esse generalizador que tudo esgotou. Santo Agostinho, Copérnico, Newton, Boehme, Swedenborg e Goethe são igualmente seus devedores e são forçados a repeti-lo. E é justo honrar o mais completo generalizador de todas as deduções tiradas da sua tese.
Platão é a filosofia e a filosofia é Platão - ao mesmo tempo a glória e a vergonha da humanidade, visto que nem Saxão, nem Romano souberam acrescentar alguma idéia às suas categorias. Não teve mulher nem filhos e os pensadores de todas as nações civilizadas são a sua posteridade e estão impregnados do seu espírito. Quantos grandes homens a Natureza incessantemente faz surgir da noite para serem os SEUS HOMENS - platonistas! Os Alexandrinos, constelação de gênio; os Isabelinos, não menos; Thomas Morus, Henri Morus, John Hales, John Smith, Lord Bacon, Jeremias Taylor, Ralph Cudworth, Sydenham, Tomas Taylor, Marsílio Ficino e Pico de Mirandola. O Calvinismo está no seu 'Fédon'. O Cristianismo também. Toda sua filosofia, no seu manual de moral, 'Akhlaky-Jalaly', o Maometismo (Islamismo) tira-a dele.
O Misticismo encontra em Platão todos os seus textos. Esse cidadão duma cidade da Grécia não tem freguesia nem Pátria. Um inglês lê e diz: 'Como é inglês!' Um alemão: 'Como é teutônico!' Um italiano: 'Como é romano e como é grego!' Assim como se diz que Helena de Argos tinha uma universal beleza que fazia com que todos se sentissem aparentados com ela, também Platão parece ao leitor da Nova Inglaterra um gênio americano. A sua vasta humanidade ultrapassa todas as fronteiras".


Por: Ralph Waldo Emerson, in: "Homens Representativos" (Ediouro, s/d; trad. Alfredo Gomes; original de 1849-50págs. 31-32.
Pintura: detalhe de "A Escola de Athenas", por Rafael Sanzio

Um comentário:

Marcelo Novaes disse...

Ralph Waldo Emerson, com justiça e justeza, faz sua elegia a Platão.
Quando se pensa nos arquétipos junguianos, quando se pensa na noção de Wilfred Bion sobre "pensamentos à procura de um pensador" ( praticamente nos termos de Pirandello, no seu "Seis Personagens à Procura de um Autor"), também é a Platão que tudo isso nos remete.

Talvez por não ter bebido do "Letes" suficiente água que o fizesse esquecer o que sabia, Platão, com sua "memória acesa", deu aos seus contemporâneos e a uma linhagem subsequente de pensadores, um vislumbre ( insight) do lugar onde mora a beleza, a certeza, a justiça.

Abraços, Bardo.


Marcelo Novaes, Tiozinho Trovador.