segunda-feira, março 20, 2006

O Bardo - um cântico sobre mim mesmo


Primeiramente vos direi.
Que sou um buscador.
Busco tudo o que é grande,
Sublime, belo e inalcansável.
Depois vos digo que sou um amante:
É o Amor a energia a me mover
Em busca do que é impossível.
Sou um vadio que erra por muitas paragens
E por muitos caminhos
Sempre amando, sempre buscando.
Eu vos digo, de mim, que sou um ébrio
De beleza e de prazeres sutis da vida.
As coisas rudes não me agradam.
Sou, como todo amante, um sofredor
Mas, um sofredor feliz.
A vida me crava adagas de dor no peito
E eu transformo estas lâminas
Em flores e rosas, coloridas e perfumadas.
Também tenho a vos dizer que sou um cantor
E meus cânticos elevam
A quem os ouve.
Toco minha harpa para que ouçam
Sua harmonia e sonoridade.
Fui designado por Awen, minha Musa,
Para ser seu porta-voz perante os homens.
Também sou um jardineiro de sentimentos,
Pois, minh'alma é o Jardim Sagrado
Onde cultivo apenas as mais belas
E perfumadas flores da emoção.
Neste Jardim não há ervas
Daninhas de ódio, rancor e medo.
Eu sou um músico: minha harpa
É minh' alma que toco e ela
Emite suaves notas.
Sou alado como minha mãe,
A Águia que veio do Sol.
Sou rápido como o vento
E trilho meus caminhos
A pé, sempre observando
Os lugares por onde passo.
Olho todos os rostos e todos
Os muitos semblantes humanos.
Adoro ouvir o que me diz a Natureza
Através do cântico dos pássaros,
Do farfalhar das folhas nas árvores
E da chuva caindo no lago.
Sim, a Natureza me diz muitas coisas.
Ela também me faz ver
O que é invisível para muitos:
Os Símbolos, a linguagem velada
Pela qual sou ensinado.
Sou amigo dos animais
E com eles converso.
Da coruja aprendi a ser prudente
E a enxergar na escuridão da tristeza;
Da águia aprendi a voar alto
Com as asas da mente até os céus do Espírito;
Da serpente obtive conhecimentos
Muito profundos e uma sabedoria misteriosa.
O cão ensinou-me a ser amigo leal
A todo homem que merece.
O cavalo ensinou-me a ser
Vigoroso e a correr veloz
Em busca do que é Bom.
Evito a guerra. Prefiro conciliar
Os opostos com harmonia e justiça.
Gosto do diálogo amigável
Ao invés das lutas assassinas.
Amo a Paz, mas se a guerra
For justa, nela adentro e combato com valor.
A Sabedoria é minha Luz,
Que guia os meus passos na escuridão
Da ignorância, qual estrela
Na noite profunda de minha vida.
Amo o dia, porque é alegria e entusiasmo
E adoro a noite, ela é profundidade e reflexão.
Dia e Noite, amantes que não se tocam,
Eternamente separados pelo manto
Do Crepúsculo e pelo véu da Aurora.
Meu coração é forte como o diamante,
Mas sensível como uma rosa:
Ele suporta o calor do sofrimento
E os duros golpes da vida.
Mas, também reconhece o Amor
E as belezas do viver
Qual borboleta pousada na flor.
Minha mente é alada
E voa alto com asas de esperança.
Ela é expansiva como um Império
E iluminada como uma estrela.
Eis aí, amigos meus, quem sou:
Um Bardo; um buscador
E amante; um aventureiro
E alado sonhador;
Uma ave que voa
Com asas invisíveis ao infinito misterioso.
Awmergin, o Bardo
Em 16/11/2005 às 23:40h


Fotografia: "Awmergin tocando seu bandolim".

3 comentários:

Luciana Rocha disse...

Este seu auto retrato é fabuloso muito lindo mesmo, muita sorte em seu caminho, meu amigo bardo.

Anônimo disse...

O canto do bardo é o canto de seu povo, e como as pessoas hoje vivem a ilusão do consumo e da felicidade das compras, restaria a solidão do poeta, um recanto imune a toda a doença da pós-ou da própria modernidade que é o lugar nenhum como toda ilusão da vida sem sentido. Continue, Marcelo, a escrever, porque seu escrever é uma forma de cantar , de conduzir a voz abafada do canto, tão essencial à vida como a própria vida que é a própria poesia. Você tem a alma de Hölderlin, que sentiu a degradação do classicismo ocidental à fragmentação inevitável dos escombros e das ruínas da vida moderna sem direção alguma; você tem a complementaridade de corpo e espírito tão essencial à harmonia do ser e da linguagem que parecem, no fundo, a mesma coisa. O poeta é o decifrador dos deuses: lembre-se de Orfeu, sempre, perdeu Eurídice duas vezes, na terra e no Hades (o mundo invisível)mas nunca perdeu o dom de cantar, nunca perdeu a voz, mesmo quando foi apenas uma cabeça, a flutaur no rio do tempo.

Avoé,

poeta

Campinas, 21 de maio de 2006.

Benilton Cruz

Alessandra disse...

Um dos mais belos cânticos que já pude sentir. Muito Amor em seu caminho, querido Rouxinol.